Amigos das Palavras

Por decisão do autor deste blogue os textos do próprio não seguem o acordo ortográfico de 1990.



quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

50 (VII - Orgulho).

Ano: 2012
Local: Condeixa, Portugal.


Hoje as palavras de corredor dão lugar a palavras de pai…
No último fim-de-semana estivemos por Terras do Sicó na ajuda possível aos meus companheiros da Associação Desportiva O Mundo da Corrida na prova III Trail do Sicó.
Domingo tive como tarefa estar num dos abastecimentos (o do Poço), tal como tinha acontecido em Portel (no Trail do Grande Lago) a Vitória mostrou vontade de me acompanhar e assim foi.
Foi uma bela manhã na companhia de alguns companheiros da associação e de pessoas da terra, também de muitos participantes entre os quais alguns conhecidos e amigos deste admirável mundo da corrida, uma manhã em que passaram pelo nosso abastecimento todos os participantes (mais de 1000 pessoas) e em que a Vitória esteve sempre disponível para encher os copos de água, para ir buscar mais pão, mais fruta, para ajudar…
Uma bela manhã a sentir como está grande a minha "menina de ouro", a sua vontade própria, a sua atitude responsável, a sua capacidade de criar amigos e cumplicidades, se bem que seja algo que não me surpreende por completo, enche-me de orgulho.
Em breve voltarei com palavras de corredor.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

50 (VI - Sevilha).

Ano: 2012
Local: Sevilha, Espanha.

Ontem participei na 28ª Maratón Ciudad de Sevilla, um ano depois foi muito bom voltar a correr a distância que mais prazer me dá fazer, um ano depois foi muito bom voltar a correr numa cidade da qual guardo as melhores recordações e onde há um ano consegui mesmo o meu melhor ainda que modesto registo na distância (3h29'09'').
Ontem terminei com 3h34'45'' na que foi a minha 10 Maratona (3 em Sevilha, 3 em Lisboa, 2 em Badajoz e 2 no Porto).
Segue-se Badajoz.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

50 (V - Nascimento).

Miracle

you're my life's one miracle
everything I've done that's good
and you break my heart with tenderness
and I confess it's true
I never knew a love like this 'til you
you're the reason I was born
now I finally know for sure
and I'm overwhelmed with happiness
so blessed to hold you close
the one that I love most
though the future has so much for you in store
who could ever love you more?
the nearest thing to heaven
you're my angel from above
only God creates such perfect love
when you smile at me, I cry
and to save your life I'd die
with a romance that is pure in heart
you are my dearest part
whatever it requires
I live for your desires
forget my own, your needs will come before
who could ever love you more?
there is nothing you could ever do
to make me stop loving you
and every breath I take
is always for your sake
you sleep inside my dreams and know for sure
who could ever love you more?


Ano: 2004
Local: Hospital de Santa Maria, Lisboa.

25 de julho, 4 horas e 42 minutos, o homem olha o bebé acabado de nascer, troca olhares com a mulher, o milagre em suas vidas, o único na vida do homem, homem que nunca tinha acreditado em milagres, a única vitória da vida do homem, a única, desejada, imensamente desejada, a felicidade, a paz, a serenidade, o circulo que se fecha, o reencontro…

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

50 (IV – Morte).

Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cá ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente deste mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer, em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei.

José Luís Peixoto



Ano: 2000
Local: Almada, Margem Sul do Tejo.


Nunca…
O pai morreu!
O homem com o auscultador na mão nem consegue reagir às palavras da voz trémula da irmã, de novo a morte a marcar a vida do homem, morte para a qual nunca se está preparado, nunca…
Se o pai embora estivesse estado sempre presente na vida do homem tinha sido após a morte da mãe quando ele ainda era menino que a presença do pai marcaria para sempre o seu caminho ao longo dos quase 30 anos que se seguiram, o pai sempre presente, o pai sempre amigo, o pai sempre companheiro, o pai sempre brincalhão, o pai sempre cúmplice, o pai sempre tolerante, o pai sempre lutador, o pai sempre herói, para sempre…

Abraços, lágrimas, mulher, madrasta, irmã, sobrinho, cunhado, a ida ao hospital, reconhecer o corpo, a última noite, quase último adeus, a sala cheia, o caixão ainda aberto, as pessoas em pé à sua volta, lágrimas, palavras…
Ainda o caixão aberto, o vento que sente no rosto, o último adeus, lágrimas, palavras, o caixão já fechado que desce à terra…
Nunca, nunca, nunca…

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

50 (III - Casamento).

SINAL

Quanto amor me tens,
com amor to pago.
Trago-te no dedo,
num anel que trago.

Num anel redondo,
todo de oiro fino,
que é o teu sinal,
que é o meu destino.

Este anel me basta
pra bater-te à porta.
Truz! truz! truz! na rua
como o frio corta!

Como a chuva cai,
como o vento mia!
Mas abriste logo,
que eu é que batia.

(Que outro anel tivera
som que te chamasse?)
Já teu vinho bebo,
pra que o frio me passe;

Já na tua cama
me aconchego e deito;
já te chamo Esposa,
peito contra peito.

Como tudo é simples,
como é tudo imenso!
Ó mistério enorme,
de um anel suspenso!

E eis, na tua mão,
num anel igual,
brilha o teu destino,
luz o meu sinal.


Sebastião da Gama



Ano: 1994
Local: Almada, Margem Sul do Tejo.

Tinham-se conhecido uns anos antes, namorado q.b. e naquela sexta-feira, a última do mês de julho era chegado o dia do casamento…
Alguns familiares e amigos marcaram presença no momento de dizerem o “sim” e no resto do dia no “copo de água”, um dia feliz, muito feliz, para ambos, para o homem era mesmo até então o mais feliz dos dias que tinha vivido.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

50 (II – Morte).

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não se apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.







Ano: 1971
Local: Almada, Margem Sul do Tejo.


A mulher deitada na cama onde permanecia desde que voltara para casa depois de ter estado no hospital, a conversa a sós entre os dois uns dias antes, o menino a sentir que o tempo de partida estava para breve, as palavras da mãe, o menino a escutar com atenção, o desejo que ele cumpriria…
A mulher já deitada no caixão, por fim o bonito e jovem rosto da mulher a esboçar um sorriso, a noite, a última, o dia, o da despedida…
O caixão já fechado dentro do carro fúnebre, as pessoas que seguem a pé o carro, as pessoas nos passeios, as pessoas distorcidas aos olhos do menino, o sabor a sal…
O último adeus, o caixão que se fecha de vez, as cordas que os homens seguram e que o fazem descer dentro da cova, as pessoas que pegam em terra e a deitam sobre o caixão, as flores a cobrirem a cova já coberta de terra, sempre o sabor sal…

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

50 (I – Nascimento).

Pequeno poema

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama



Ano: 1962
Local: Almada Velha, Margem Sul do Tejo.

À uma da tarde repetindo um procedimento habitual a mulher fechou a porta da mercearia de que era proprietária, como sempre e depois de duas horas para almoço achava então a mulher que reabriria de novo a porta para o período da tarde.
Mas naquela tarde de verão do ano de 1962 as coisas não haveriam de ser assim, a mulher grávida em fim de tempo haveria de entrar em trabalho de parto e às 3 da tarde a porta da mercearia haveria de continuar fechada, na casa de família situada nas traseiras da mercearia onde a mulher residia com o marido e a filha de 6 anos haveria de a mulher parir nesse tempo um bebé do sexo masculino a quem seria dado como nomes próprios António Fernando e como nomes de família Gomes de Almeida.
Segundo ouviu mais tarde contar que como será de esperar desse dia o homem que um dia foi esse bebé nada se recorda, a sua irmã na tarde desse mesmo dia terá aproveitado um momento de distracção dos pais e provavelmente movida por ciúmes terá enchido de cuspo os olhos do bebé que dormia deitado no seu berço.