Amigos das Palavras

Por decisão do autor deste blogue os textos do próprio não seguem o acordo ortográfico de 1990.



quarta-feira, 11 de novembro de 2009

6ª Maratona do Porto (II - Palavras, "2ª parte").

A minha Maratona do Porto (e,…algumas palavras de "Cemitério de Pianos" de José Luís Peixoto).

- Da partida à meia-maratona.

Cidade do Porto, Domingo, 8 de Novembro de 2009, 9 horas da manhã…
Parti para a minha 3ª maratona na companhia de muitos amigos com quem fui travando conhecimento aqui na blogosfera, um ano depois da minha estreia na mítica distância da maratona parti também sem sentir a ansiedade de há um ano, essa foi a grande diferença que senti neste meu regresso à Invicta.
Momentos antes quando me tinha despedido das minhas meninas tinha dito à Isabel que por volta das 12h30 estaria na linha de chegada.
Logo na subida inicial o Paiva e o Meixedo começaram a distanciarem-se, dos amigos da hora da partida continuei a ter, por perto, apenas a companhia do Ricardo.
Primeiro quilómetro em pouco mais de 5 minutos e já na Avenida da Boavista foi altura do Ricardo começar também ele a distanciar-se, pouco tempo depois vi passar o Rui Pena a tentar colar no Ricardo.
Ainda com menos de 2 quilómetros de prova, apesar de muita gente por perto, eu corria já sozinho o que aconteceria durante quase toda a prova, algo que não deixa de me ser bem familiar desde há muitos anos, quer em provas mas sobretudo em treinos…

“…quando ia treinar passava pelas ruas a correr e ninguém podia imaginar o mundo de palavras que levava comigo. Correr é estar absolutamente sozinho. Sei desde o início: na solidão é-me impossível fugir de mim próprio. Logo após as primeiras passadas, levantam-se muros negros à minha volta. Inofensivo o mundo afasta-se. Enquanto corro, fico parado dentro de mim e espero. Fico finalmente à minha mercê. No início, tinha treze anos e corria porque encontrava o silêncio de uma paz que julgava não me pertencer. Não sabia ainda que era apenas o reflexo da minha própria paz. Depois, quando a vida se complicou, era tarde demais para conseguir parar. Correr fazia parte de mim como o meu nome…”
José Luís Peixoto in Cemitério de Pianos

À passagem do 2º quilómetro verifiquei que estava já num ritmo inferior aos 5 minutos por quilómetro, sentia-me solto e leve, a chuva que tinha começado a cair quase em simultâneo com a partida da prova ia-me sabendo muito bem.
Por perto continuavam muitas pessoas, muitas das quais com dorsais com números o que queria dizer que na maioria eram participantes da prova convívio (family race), os participantes da maratona tinham dorsais com os próprios nomes, concentrei-me no meu andamento e no prazer imenso que estava a saber-me correr depois de nos dias anteriores à prova o ter feito tão poucas vezes e por tão pouco tempo, quase sem dar por isso cheguei à zona de chegada mas ainda com muitos quilómetros para correr até voltar de novo ali.
Na descida em relação à rotunda aproveitei para beber a primeira água que tinha recebido do abastecimento pouco tempo antes, rotunda feita e foi altura de começar a ver passar os atletas que já voltavam do 1º ponto de retorno, vi passar alguns amigos da hora de partida, Paiva e Meixedo que seguiam juntos, já perto do ponto de retorno, Magro, Ricardo, incentivos mútuos.
Após fazer o retorno continuei a ver alguns amigos, não estou certo da ordem mas não deve estar longe do real, Pena, Brito, pouco depois o meu cunhado Vitor que participou na "family race", Adelino, também o meu companheiro de grande parte da minha 1ª maratona, o José Alberto Bastos.
Ainda antes de passar de novo pela rotunda o meu cunhado Vítor apanhou-me e seguimos juntos até ao ponto de separação das duas provas (maratona e family race), conversámos durante quase todo o tempo que seguimos juntos, disse-lhe que achava que ia rápido mas que ia continuar, pedi-lhe para dizer à Isabel que aos 10 quilómetros estava tudo a correr como previsto, 10 quilómetros onde passámos com pouco mais de 48 minutos de tempo de corrida, pouco depois o último incentivo por parte do Vítor (no ponto de retorno da family race) e eis que de novo fiquei sem companhia.
Sabia que a partir daquele ponto (após a separação das duas corridas) ia haver muito menos gente a correr, fui vendo que também eram poucos os que assistiam à passagem da corrida e sentindo alguma indiferença por parte de alguns ocasionais transeuntes.
Continuei a correr enquanto ia olhando para o meu lado direito, visualizei um quadro maravilhoso em tons de um cinzento azulado sobre o qual imergiam a serenidade das folhas das árvores e a rebelião das ondas e, enquanto o fazia nos meus ouvidos ia ecoando o ritmo certo dos passos de corrida.
Cheguei aos 15 quilómetros a manter um ritmo ligeiramente inferior a 5 minutos por quilómetro, altura em que bebi água e tomei o 1º gel (aos 10 quilómetros tinha bebido apenas água).
Pouco depois a passagem pelo túnel da Ribeira e quase de seguida a passagem para Gaia através do tabuleiro inferior da Ponte de D. Luís, foi nessa zona de passagem que estava a maior concentração de pessoas a assistirem, os incentivos maiores esses eram ouvidos em…espanhol, eu chegava a "território" ainda há bem pouco tempo explorado (entenda-se corrido), a recente meia-maratona da SportZone (prova em que participei) foi toda ela corrida num percurso que está todo ele incluído no percurso da maratona.
Na ida até ao 2º ponto de retorno localizado na zona da Afurada deu para ver passar muitos dos participantes que já estavam de regresso, um forte incentivo ao Mota (já repararam como ele agradece com o olhar), também ao Capela que seguia já com alguma distância em relação ao Mota, percebi ali que o Mota, como eu tantas vezes lhe disse, "voava" no regresso à Invicta e à prova em que se consagrou maratonista em 2008.
Eu continuei a correr e a sentir-me muito bem e com a certeza que ia chegar à meia-maratona com o tempo que eu tinha previsto ou muito perto disso (o que se confirmaria uma vez que a completei em 1h45'52'', ritmo de 5'01''/km), de novo os incentivos aos amigos da blogosfera e aos outros (os que já estavam de volta e depois aos que ainda iam).
(continua)

3 comentários:

JP disse...

Muitos parabéns, grande prova!

Mário Lima disse...

António

Pelo que de ti li, numa prova como a Maratona, chega-se a uma altura e corremos sozinhos, mesmo que a nosso lado estejam outros companheiros.

É nessa altura em que nos "ausentamos" da prova, olhamos o alcatrão, e mil pensamentos vêm à nossa memória. Recordamos pessoas que nos são queridas já desaparecidas, olhámos para os Mosteiros, casas, pessoas que batem palmas, nos apoiam, sem ver rostos. Temos uma meta, e é partir dos 31 a 33km que essa "solidão" mais se manifesta. Vemos o arco da chegada ao longe, as nossas pernas fraquejam um pouco, as dores nos joelhos são enormes, nunca mais lá chegámos!

Cerramos os dentes, mais um pequeno esforço e cortámos a meta.

À chegada, dizemos sempre que somos uns loucos, que a nossa mãe não nos fez para sofrermos assim, mas um sorriso perspassa no nosso rosto, quase sempre olhámos para trás para ver o rosto dos nossos companheiros que vão chegando, damos-lhes um abraço, agradecemos o apoio que nos "deram" e sai-se dali, com o peso enorme nas pernas, mas com uma leveza no corpo, como se os 42195 metros fosse o revitalizar de um novo ser que acabou de escrever mais um pedaço da sua história de vida.

Um abraço e até Nazaré.

Joka disse...

Show parabéns guerreiro!!!