Amigos das Palavras

Por decisão do autor deste blogue os textos do próprio não seguem o acordo ortográfico de 1990.



quarta-feira, 28 de abril de 2010

Quem faz um filho fá-lo por gosto.

Corria o ano de 1969 quando Ary dos Santos concorreu ao festival da canção com a "Desfolhada", a qual acabaria por ser a grande vencedora e a representante de Portugal na Eurovisão nesse ano levando a que Simone de Oliveira pudesse gritar aos 4 ventos (primeiro no país, depois na Eurovisão) palavras nunca até então permitidas pública e livremente pelo regime vigente no país, sendo motivo de muito "falatório" em especial o verso "quem faz um filho fá-lo por gosto". O tema "Desfolhada" deu assim uma forte machadada do regime fascista que oprimia o país, 4 anos depois a história repetiu-se com nova vitória e nova ida à Eurovisão, sendo então pela voz de Fernando Tordo que a Eurovisão ouviria a "Tourada", o país assistia a tudo pelos écrans da televisão e os mais esclarecidos politicamente, que à época eram mesmo muitos, deliciavam-se com os "tiros no pé" do regime fascista e adivinhavam cada vez mais o seu fim, que acabaria por acontecer em 25 de Abril de 1974.

Deliciem-se com as palavras dessa bela "Desfolhada", para os que conhecem a canção vão se calhar a darem por si a trautearem "Minha palavra dita à luz do sol nascente meu madrigal de madrugada amor amor amor amor amor presente em cada espiga desfolhada", ou quem sabe se calhar apenas a soletrarem "quem faz um filho fá-lo por gosto"…

Desfolhada


Corpo de linho
lábios de mosto
meu corpo lindo
meu fogo posto.
Eira de milho
luar de Agosto
quem faz um filho
fá-lo por gosto.
É milho-rei
milho vermelho
cravo de carne
bago de amor
filho de um rei
que sendo velho
volta a nascer
quando há calor.

Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.

Minha raiz de pinho verde
meu céu azul tocando a serra
oh minha água e minha sede
oh mar ao sul da minha terra.

É trigo loiro
é além tejo

o meu país

neste momento

o sol o queima

o vento o beija

seara louca em movimento.

Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.

Olhos de amêndoa
cisterna escura
onde se alpendra
a desventura.
Moira escondida
moira encantada
lenda perdida
lenda encontrada.
Oh minha terra
minha aventura
casca de noz
desamparada.
Oh minha terra
minha lonjura
por mim perdida
por mim achada.

José Carlos Ary dos Santos


Ouvir a "Desfolhada".

2 comentários:

Mário Lima disse...

Olá António

"Mudam-se os tempos mudam-se as vontades" e o que era ontem um tema para ser comentado de peito aberto, hoje escondem o peito para que não se veja o cravo que há nele.

Agradeço-te do fundo do coração este tema, pois passei muito tempo no meio do mato para dar valor à Liberdade que os meus Pais não tiveram.

Triste é ver um povo que deixou de ser triste em Abril de 74 e agora volta a ser aquilo que sempre foi... Triste e cinzento.

Um abraço!

jefhcardoso disse...

Antônio, sou eu quem lhe agradece aqui do Brasil por sua atenção amigo.

Sucesso!

Abraço do Jefhcardoso