Amigos das Palavras

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terça-feira, 25 de maio de 2010

III Ultra Trail Geira.

"Há sitios no mundo que são como certas existências humanas: tudo se conjuga para que nada falte à sua grandeza e perfeição. Este Gerês é um deles."
Miguel Torga, Diario VII

No passado domingo participei na III Ultra Trail Geira / Via Nova Romana, a qual de véspera tinha sido anunciada como tendo 52,512 km (contra os inicialmente 50 previstos) mas que segundo o "gps" de alguns dos participantes acabou por não ter 52 quilómetros, no meu caso e fruto de dois enganos acabei por "calcorrear" exactamente 52,980 km sendo que demorei para o fazer 7 horas e 13 minutos.
Esta III Ultra Trail Geira teve à partida 184 atletas (170 homens e 14 mulheres) dos quais 129 completaram a prova (118 homens e 11 senhoras), sendo pois que 55 atletas (52 homens e 3 senhoras) por motivos vários não o fizeram, sendo que entre eles e com muita pena minha estavam os amigos daqui da blogosfera, o "pára" e o "comando".

A partida da prova foi dada em Lobios (Espanha) no lugar de Banos (junto às termas) e a chegada deu-se junto à piscina de Caldelas (concelho de Amares), sendo que a prova atravessou grande parte do Parque Natural do Gerês, na minha opinião uma zona de uma beleza natural estonteante e um dos lugares mais belos que já visitei, o que já fiz por várias vezes.
Entre o ponto de partida e o de chegada a prova percorreu quase integralmente a Via Nova Romana, também conhecida como Geira, Via que ligava Bracara Augusta (actual cidade de Braga em Portugal) e Asturica Augusta (actual Astorga em Espanha), entre a milha XXXVIII e a milha XII, com os seus Marcos Miliários, os quais assinalavam as milhas na Via e davam a conhecer a distância até à cidade mais próxima.
Esta designação de Via Nova Romana, advém de já haver uma outra Via que seguia também de Bracara Augusta para Asturica Augusta mas com um traçado que passava por Aquae Flaviae (Actual cidade de Chaves em Portugal), Via que tinha mais milhas do que a Geira.

Tal como na minha 1ª ultra (Raid Melides – Tróia em 2009) à partida para esta minha 2ª ultra "a coisa continuava a ser simples, tal como em Melides só havia um caminho, o de ida, depressa ou devagar lá chegaria, tartarugando iria conseguir apreciar mais coisas" (ver nota no final).

De Lobios (Espanha) até ao Museu da Geira (depois da Milha XXVII):

Parti na companhia do meu cunhado Vitor Veloso, com poucos metros corridos eis que passou por nós o José Magro e logo depois o Abutre Vitorino (que tinha anunciado querer seguir no comboio das 5 mas que de véspera me dizia que as 5 iam até às 5h59, mesmo assim quem me dera), nos quilómetros iniciais continuámos a ser passados por muitos atletas, entre eles o Brito e o Daniel, o Brito rápido se adiantou, eu continuei nessa fase por perto do Veloso e também do Daniel, foram cerca de 7 quilómetros, alguns a subir, que nos levaram até à Portela de Homem, onde à entrada em território nacional tínhamos o incentivo do "Centurião" Moutinho, zona onde tivemos o primeiro dos 7 abastecimentos ao longa da Geira.

Quase de imediato entrámos na Mata da Albergaria, fase a descer e em que o Veloso e o Daniel saíram disparados (nunca mais os vi até à meta), nessa fase fui também passado por uma das senhoras que participaram na prova, no caso a atleta que viria a ser 6ª classificada, Maria Júlia Fernandes.
Após essa descida, junto à ponte em madeira sobre o Rio Homem estava o primeiro dos pontos de controlo ao longo da prova, transposto o rio continuámos ainda mais algum tempo embrenhados na mata da Albergaria, zona lindíssima, impossível de descrever tudo aquilo que vi, ouvi, cheirei, …verdíssimo, correr de águas cristalinas, seixos, chilrear de pássaros que parecia falarem-nos directamente ao coração, cheiro à natureza no seu esplendor, …como disse impossível de descrever...

Já no estradão que se seguiu passei a correr por perto do Manuel Fonseca e do Nuno (atletas do Mundo da Corrida), o Nuno ia tirando constantemente fotos, aos poucos fomos começando por entre a vegetação que em certas zonas formava um autêntico túnel a ter vislumbres da superfície de água da albufeira da Barragem de Vilarinho das Furnas.
Pouco depois alcançávamos o 2º ponto de abastecimento onde o "Centurião" Moutinho e o "César" Ribeiro iam tratando de saciar a sede aos que iam chegando.
Depois de me hidratar, também de encher a minha garrafa de água e já prestes a sair desse 2º abastecimento vi ainda chegar um numeroso grupo de atletas.

Na fase seguinte tentei seguir junto a um atleta, dos que tinha chegado mas que quase de imediato tinha continuado a correr, mas aos poucos ele foi-me ganhando avanço, algum tempo depois cheguei perto da Maria Júlia Fernandes, seguimos nessa fase alguns quilómetros juntos, fomos falando o que segundo ela era sinal de que íamos bem, de facto íamos mas nem tínhamos percorrido ainda um 1/3 da distância, estávamos então com 16 quilómetros percorridos, pouco depois na passagem por uma das aldeias seguimos em frente quando era para cortar à esquerda, fomos até ao cima da aldeia onde havia um varandim, eu comecei e duvidar se estávamos bem mas ela ia dizendo que se calhar a passagem por aquele ponto era para ver as vistas mas logo o que nós vimos era que estávamos era fora de rota pois bem lá em baixo vimos uma fila de participantes que por entre as estreitas ruelas da aldeia passavam a correr, depois de alguma confusão para dar com a saída e entrar na rota certa e enquanto íamos lamentando o nosso engano apanhámos o Manuel e o Nuno, os meus companheiros de uns quilómetros antes, que seguiam nessa fase junto à atleta que seria no final a 9ª classificada e que estranharam eu surgir de trás.
Chegámos assim ao Museu da Geira onde estava mais um dos pontos de controlo (o 3º) e mais um dos abastecimentos.
Enquanto bebia coca-cola olhei para o meu "garmin", eram números bem animadores aqueles que ia vendo, depois de emborcar mais um copo de coca-cola recomecei a correr...

(continua)

Junto ao Manuel Fonseca:

Junto à Maria Júlia Fernandes:

Perto da atleta que seria 9ª classificada (Carla):As 3 fotos da autoria de Nuno Alexandre

nota) No original "a coisa é simples…só há um caminho, o de ida…depressa ou devagar lá chegaremos…tartarugando conseguimos apreciar mais coisas", palavras de António Bento no seu blog "A Febre do Tartaruga".

9 comentários:

Anónimo disse...

Amigo escreve isso rápido que está empolgante.
queremos mais!!!
abraço
ab - tartaruga

joaquim adelino disse...

Está linda a hitória António, estou como o Bento venha o resto.
Abraço

João Paulo Meixedo disse...

ufff, grande prova, grande relato.
Venha mais.
Talvez um dia tenha coragem.
Parabéns e um grande abraço.

BritoRunner disse...

Parabéns pela prova realizada.

Mais uma vez um relato 5 estrelas, com um misto de desporto e cultura.

Muito bom António.

Saudações Trailianas
JCBrito

Ricardo Hoffmann disse...

António ultraman, que beleza de prova! curioso para o desfecho. Parabéns amigo!!!

Fernando Andrade. disse...

OLá António.
Parabéns pela Prova e pelo relato à maneira. Espera-se pelas cenas dos próximos capítulos.
Grande Abraço.
FA

Mário Lima disse...

Queiramos ou não, o engano é tão possível como ouvirmos a recomendação do Moutinho que as fitas estavam situadas entre 100 e 200 metros e não ligarmos nenhuma.

:)

Belo relato e bem descrito, ficaste onde eu, pouco depois, gostaria de saber ao certo onde é que tudo me aconteceu e a razão por que é que não vi as fitas.

Haveria uma subida que não vi na serra? Estou a aguardar os teus próximos passos que serão os meus.

Até já.

Vitor Veloso disse...

DUR
Realmente na entrada da Mata da Albergaria, sai disparado por ali abaixo só ouvia o Daniel a gritar por mim, cheguei bem rápido e lá fiquei um pouco a tua espera, que pena não termos continuado juntos como ate então!
Parabéns pela tua segunda ultra.
Bonito relato ficando a espera da próxima parte.
Abraço
TAN

Filipe Fidalgo disse...

Bravo, António.
Que grande relato e que prova enorme, mais uma ultra superada, o raid espera por ti.
Muitos Parabéns pelo resultado alcançado, e pela excelente involvência que colocas nesta história que nos absorve e nos mantêm agarrados ao monitor na vã esperança que a meta não chegue.
Um grande Abraço.
Filipe Fidalgo