Amigos das Palavras

Por decisão do autor deste blogue os textos do próprio não seguem o acordo ortográfico de 1990.



sexta-feira, 22 de junho de 2012

50.

"E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida."

trecho de “O Primeiro Dia” de Sérgio Godinho


I – Nascimento.
Ano: 1962
Local: Almada Velha, Margem Sul do Tejo.

À uma da tarde repetindo um procedimento habitual a mulher fechou a porta da mercearia de que era proprietária, como sempre e depois de duas horas para almoço achava então a mulher que reabriria de novo a porta para o período da tarde.
Mas naquela tarde de verão do ano de 1962 as coisas não haveriam de ser assim, a mulher grávida em fim de tempo haveria de entrar em trabalho de parto e às 3 da tarde a porta da mercearia haveria de continuar fechada, na casa de família situada nas traseiras da mercearia onde a mulher residia com o marido e a filha de 6 anos haveria de a mulher parir nesse tempo um bebé do sexo masculino a quem seria dado como nomes próprios António Fernando e como nomes de família Gomes de Almeida.
Segundo ouviu mais tarde contar que como será de esperar desse dia o homem que um dia foi esse bebé nada se recorda, a sua irmã na tarde desse mesmo dia terá aproveitado um momento de distracção dos pais e provavelmente movida por ciúmes terá enchido de cuspo os olhos do bebé que dormia deitado no seu berço.


II – Morte.
Ano: 1971
Local: Almada, Margem Sul do Tejo.

A mulher deitada na cama onde permanecia desde que voltara para casa depois de ter estado no hospital, a conversa a sós entre os dois uns dias antes, o menino a sentir que o tempo de partida estava para breve, as palavras da mãe, o menino a escutar com atenção, o desejo que ele cumpriria…
A mulher já deitada no caixão, por fim o bonito e jovem rosto da mulher a esboçar um sorriso, a noite, a última, o dia, o da despedida…
O caixão já fechado dentro do carro fúnebre, as pessoas que seguem a pé o carro, as pessoas nos passeios, as pessoas distorcidas aos olhos do menino, o sabor a sal…
O último adeus, o caixão que se fecha de vez, as cordas que os homens seguram e que o fazem descer dentro da cova, as pessoas que pegam em terra e a deitam sobre o caixão, as flores a cobrirem a cova já coberta de terra, sempre o sabor sal…


III– Casamento.
Ano: 1994
Local: Almada, Margem Sul do Tejo.

Tinham-se conhecido uns anos antes, namorado q.b. e naquela sexta-feira, a última do mês de julho era chegado o dia do casamento…
Alguns familiares e amigos marcaram presença no momento de dizerem o “sim” e no resto do dia no “copo de água”, um dia feliz, muito feliz, para ambos, para o homem era mesmo até então o mais feliz dos dias que tinha vivido.


IV– Morte.
Ano: 2000
Local: Almada, Margem Sul do Tejo.

Nunca…
O pai morreu!
O homem com o auscultador na mão nem consegue reagir às palavras da voz trémula da irmã, de novo a morte a marcar a vida do homem, morte para a qual nunca se está preparado, nunca…
Se o pai embora estivesse estado sempre presente na vida do homem tinha sido após a morte da mãe quando ele ainda era menino que a presença do pai marcaria para sempre o seu caminho ao longo dos quase 30 anos que se seguiram, o pai sempre presente, o pai sempre amigo, o pai sempre companheiro, o pai sempre brincalhão, o pai sempre cúmplice, o pai sempre tolerante, o pai sempre lutador, o pai sempre herói, para sempre…
Abraços, lágrimas, mulher, madrasta, irmã, sobrinho, cunhado, a ida ao hospital, reconhecer o corpo, a última noite, quase último adeus, a sala cheia, o caixão ainda aberto, as pessoas em pé à sua volta, lágrimas, palavras…
Ainda o caixão aberto, o vento que sente no rosto, o último adeus, lágrimas, palavras, o caixão já fechado que desce à terra…
Nunca, nunca, nunca…


V- Nascimento.
Ano: 2004
Local: Hospital de Santa Maria, Lisboa.

25 de julho, 4 horas e 42 minutos, o homem olha o bebé acabado de nascer, troca olhares com a mulher, o milagre em suas vidas, o único na vida do homem, homem que nunca tinha acreditado em milagres, a única vitória da vida do homem, a única, desejada, imensamente desejada, a felicidade, a paz, a serenidade, o circulo que se fecha, o reencontro…

6 comentários:

Ms Harkins disse...

Que apanhado interessante da tua vida! Casastes no ano que minha filha mais velha nasceu e tua filha nasceu no ano que meu caçula chegou :-)

Abç

Fernando disse...

Muitos parabéns pelos 50 "verões" amigo António Fernando Gomes de Almeida.
Apesar de atribulados e carregados de tristeza, os últimos tempos trazem alegria e felicidade. É bom ter uma família com quem partilhar estes momentos, assim como amigos verdadeiros que estão disponíveis quando deles precisamos. Muitas felicidades e votos de muitas corridas, com muita saúde e paixão.
Abraço

Fernando Andrade. disse...

Boa retrospectiva a marcar os 50, Amigo António. Parabéns.Todos os que nos forama queridos permanecem nas nossas vidas e acompanham-nos nos momentos felizes que virão a seguir.
Grande abraço.
FA

Jose Xavier disse...

Caro António;

É uma retrospectiva, com datas bem defenidas, de 50 anos que marcam a tua vida.

E cada dia que passa é sempre o primeiro dia do resto das nossas vidas!! é isso mesmo companheiro.

Nos veremos em Óbidos?!

Um abraço amigo dos Xavier's

Ms Harkins disse...

António,

queria te pedir um favorzão. Quando puderes me indica um bom livro de autor português contemporâneo. Sabes que adoro os autores portugueses (Cemitério de Pianos, Saramago, Fernando Pessoa, Lobos, etc).

Gracias, fico no aguardo, tá?

Bjs

António Almeida disse...

Ms Harkins
Gosto mesmo muito de todos os escritores que referiste (Lobo Antunes, Pessoa, José Luis Peixoto e Saramago), li a obra quase completa de todos.
Acrescentei 2 escritores (Cardoso Pires e Assis Pacheco) de que também muito gosto e escolhi um livro de cada deles.

António Lobo Antunes:
Eu Hei-de Amar uma Pedra.

José Cardoso Pires:
De Profundis, Valsa Lenta

José Luis Peixoto:
Cemitério de Pianos

José Saramago:
O Homem Duplicado.

Fernando Assis Pacheco:
Trabalhos e Paixões de Benito Prada.

E de Pessoa adoro tudo, “O Guardador de Rebanhos” é um dos meus poemas preferidos.
Pedido satisfeito…ou não?

...e como dá para perceber pela presença assídua aqui nas "palavras" sempre a poesia de Eugénio de Andrade, Sofia de Melo Breyner, Miguel Torga, José Régio, Almada Negreiros, Alexandre O´Neill, Rui Belo, … será que esqueci de algum?

Abraço.