sábado, 19 de junho de 2010

O homem mais sábio...

Palavras de José Saramago

(do discurso na Academia Sueca ao receber o Prêmio Nobel de Literatura)


O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas. Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranquilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza". Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprias filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver.

Nota) Das muitas palavras de Saramago que me marcaram profundamente, neste sábado sombrio, recordo as que estão transcritas em cima, é a minha singela e humilde homenagem ao homem, ao escritor, ao cidadão do mundo.

13 comentários:

Jorge Branco disse...

Estamos todos muito mais pobres.

Bons Km disse...

Descanse em Paz José...
e ao lado de teus queridos avos eu espero que encontre o conforto para tua alma...
Ju

ana paula pinto disse...

Acho que se aprende a gostar. Aprende-se a gostar do mundo, aprende-se a gostar das pessoas e aprende-se a gostar das palavras.
Acho que não deve haver maior obstáculo ao amor pelo mundo, pelas pessoas e pelas suas palavras que o não querer conhecer.
Acho que se vive aprendendo-se a viver e a vermos como o que somos hoje, se vê e vive tão diferente do que víamos e vivíamos há algum tempo atrás.
Acho que na vida não tenho certezas de nada.
Antigamente era pessoa de profundas convicções, como se visse tudo "claramente visto" e pudesse dizer "gosto" e "não gosto".
Sei que choquei muita gente quando afirmava não gostar do jeito de escrever de José Saramago. O cúmulo foi continuar a afirmar tal quando o mundo se rendeu ao seu génio e apreciou a sua obra. Da obra, dessa, ainda estou na senda da descoberta, porque afinal também se aprende a gostar...com o tempo, com o conhecimento, sem aquelas "convicções" que há muito deixei de ter... Do homem, da pessoa, do génio, desse apenas posso dizer que à medida que o descubro maior o espaço que ocupa em mim.
Há um ano atrás esteve José Saramago em Constância...tão perto e tão longe...como Azinhaga uma povoação tão "longe" (desconhecida) do mundo, se tornou tão perto do mundo.

Obrigada António, por ter recordado e partilhado...

mariolima52 disse...

António

Que tristeza!!! Então o José dos "Levantado do chão", "Ensaio sobre a cegueira", do "Memorial do Convento" era um pobre rapaz de uma terra que só se vê no mapa à lupa?!

Que tristeza António!!! Então o homem não era filho de gente fina, aprendendo a tocar piano e a falar francês desde a terna idade?

Que tristeza António!!! Então um neto de criadores de porcos, que nem sabia regras de pontuação, tem elogios de todo um País... chamado Espanha, quando aqui em Portugal foi enxovalhado por um Lara e um Cavaco?!

Que alegria António, saber que um antigo guardador de rebanho, que teve o primeiro par de sapatos aos 14 anos, que via as estrelas surgirem e fugirem por baixo da figueira que ouvia os falares do seu avô e os sonhos dos inocentes, chegou onde nenhum doutor alcançou ser Prémio Nobel da Literatura e isso António dói a muita gente,... menos a mim, a ti e tantos como nós.

"Um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi o de poder dizer deste livro, quando terminasse: Isto é o Alentejo."

Sobre o livro "Levantado do chão"

Abraços e obrigado pela partilha.

Anónimo disse...

Jorge, Ju, Ana Paula e Mário
obrigado pelas vossas palavras...
Abraço aos 4.
António Almeida

FREE ATLETA disse...

D+ GUERREIRO, BONS TREINOS!!!!

Unknown disse...

Caro António;

Palavras de gente simples, para gente simples como nós, têm um sentimento diferente.

A obra de Saramago tem muito mais valor, do que um reles cavaco.

Continuacão de boas palavras e bons treinos

Um abraço.
dos Xavier's

Anónimo disse...

Joka e Xavier
agradeço igualmente as vossa palavras...
Amigo Xavier por estes dias a vontade é mais de correr que escrever.
Abraço aos 2,
António Almeida

BritoRunner disse...

Olá António~

Não sendo eu um grande leitor não pude deixar de ficar emocionado com o texto publicado. Muito bom

Azinhaga fica bem perto do local onde moro, já lá passei bastantes vezes.
Há anos atrás, quando ainda havia a Meia Maratona da Golegã o retorno era na Azinhaga, agora essa prova já não se realiza.

Abraço
JBrito

E disse...

não conhecia seu blog... e que momento mais sublime para conhecê-lo!

que belíssima homenagem!

não conhecia essa particularidade (e essência) da vida de saramago

fiquei muito emocionada...

obrigada!

Anónimo disse...

Brito e Elis
obrigado pelas palavras, muito bom que gostaram...
Abraço aos 2,
António Almeida

Ricardo Hoffmann disse...

Amigo António, apenas hoje passo em seu blog e vejo a bela homenagem. O segredo da vida está nas pequenas coisas. Abraços.

Luis Parro disse...

Saramago é eterno. Deixou obra e fieis seguidores. Não perdi uma entrevista, admirava a sua inteligencia e saber sobre as mais diversas ciências.Sentia um prazer enorme em oferecer os seus livros, por ele autografados nos eventos de lançamento, a amigos que eu sabia que o admiravam mas não tinham a possibilidade de adquirir.
Bela Homenagem António